segunda-feira, 19 de novembro de 2018

LIÇÃO 08 – ENCONTRANDO O NOSSO PRÓXIMO – (Lc 10.25-37) 4º TRIMESTRE DE 2018


Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Pernambuco
Superintendência das Escolas Bíblicas Dominicais
Pastor Presidente: Aílton José Alves
Av. Cruz Cabugá, 29 – Santo Amaro – Recife-PE / CEP. 50.040.000 Fone: 3084.1524 / 3084.1543

LIÇÃO 08 – ENCONTRANDO O NOSSO PRÓXIMO – (Lc 10.25-37)
4º TRIMESTRE DE 2018

INTRODUÇÃO
Nesta lição será abordada uma das mais conhecidas parábolas contadas por Jesus: “a parábola do bom samaritano”; veremos algumas considerações importantes para a compreensão da mensagem central desta narrativa; pontuaremos também alguns aspectos do amor verdadeiro, ilustrados na atitude do samaritano; e por fim, destacaremos o que a Bíblia diz sobre o amor ao próximo.

I – CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE A PARÁBOLA DO BOM SAMARITANO
A parábola do bom samaritano é mais uma das narrativas do Senhor Jesus, encontrada apenas no registro do evangelista Lucas. Embora exista uma passagem semelhante (Mt 22.34-40; Mc 12.28-31), porém, há diferenças, notavelmente na cronologia e no fato de que nos demais o resumo é dado por Jesus, mas aqui na passagem em apreço pelo intérprete da lei. Notemos ainda outras informações:

1.1 - A motivação do anúncio da parábola. Enquanto Jesus ensinava, levantou-se um doutor da lei, fazendo uma pergunta cujo propósito era colocar o Senhor à prova, ou seja, em uma situação embaraçosa: “[…] um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?” (Lc 10.25); isto quer dizer que sua pergunta não foi feita sinceramente mas, para fazer com que Jesus não conseguisse responder à altura, e que tivesse uma oportunidade de se colocar em superioridade. Para corrigir tal atitude bem como mostrar, qual deve ser a conduta dos seus seguidores, a saber, fazer o bem a todas as pessoas, o Mestre conta esta famosa parábola do bom samaritano (Lc 10.25-37).

1.2 - Personagens principais. Nesta parábola alguns personagens são mencionados especificamente. Vejamos:

1.2.1 - Um homem que descia de Jerusalém para Jericó (Lc 10.30). Jericó estava situada a cerca de vinte e sete quilômetros a noroeste de Jerusalém, estando a cerca de mil metros abaixo desta cidade, de modo que em uma viagem como a deste homem seria necessário enfrentar uma descida bastante íngreme. Era um caminho que corria entre desfiladeiros rochosos com curvas imprevistas que o faziam um lugar ideal para os salteadores (BARCLAY, sd, p.120 – acréscimo nosso). Sobre o homem ferido não se tem qualquer informação, além dos acontecimentos de sua jornada. Seu nome não é informado, nem mesmo a sua raça é declarada: “[…] descia um certo homem de Jerusalém para Jericó” (Lc 10.30-a). No entanto, a implicação da história é que ele era judeu, visto que, grande parte da essência e da força da história dependem deste fato. Embora tenha uma atenção especial no texto, ele não é a figura central, de modo que ele faz simplesmente o papel do próximo.

1.2.2 - Um sacerdote (Lc 10.31). Um grande número de sacerdotes viviam em Jericó e subiam até Jerusalém quando chegava o seu período de servir no Templo. Este sacerdote, em particular, poderia vir, do Templo ao término do seu período de uma semana de serviços. Sendo assim, ele provavelmente passou para o outro lado da estrada para evitar a profanação cerimonial, o que interferiria em suas funções sacerdotais por algum tempo (Nm 19.11; Lv 21.1). De qualquer forma, alguma outra coisa era mais importante para ele do que a vida de um homem mesmo a vida de um semelhante judeu: “[…] descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo” (BEACON, 2006, p. 414).

1.2.3 - Um levita (Lc 10.32). Os levitas ajudavam os sacerdotes executando os serviços necessários no Templo (Nm 1.47-54). Qualquer que fosse o motivo que levou a ambos, o sacerdote e o levita, a passarem pelo seu semelhante judeu sem ajudá-lo, a ênfase é a mesma: o que importa é o que lhes faltou, e não o motivo pelo qual não agiram. Eles estavam quase (se não inteiramente) desprovidos de amor pelo seu próximo: “E, de igual modo, também um levita, chegando àquele lugar e vendo-o, passou de largo”.

1.2.4 - Um samaritano (Lc 10.33). Os samaritanos eram descendentes de casamentos mistos de judeus nos dias do cativeiro; eles inventaram sua própria adoração, uma forma mista de judaísmo e paganismo (2Rs 17.22-31; Ed 4.1,2), com um templo próprio no monte Gerizim (Jo 4.20-23); eram considerados impuros pelos judeus (2Rs 17.29; Mt 10.5; Jo 4.9). Por isso, os samaritanos eram odiados pelos judeus e, evidentemente, a maioria dos samaritanos tinha um sentimento similar pelos judeus (Jo 4.9; 8.48). O importante é que um homem que não tinha nenhuma razão especial para ajudar este judeu e quase toda a motivação racial para não ajudá-lo, foi movido de compaixão por um ser humano que estava sofrendo. Embora esse ser humano pertencesse a uma raça odiada, ele parou e o ajudou, fazendo por ele o máximo que podia. É muito importante destacarmos os verbos que aparecem na atitude do samaritano mostrando seu grande amor pelo próximo: “chegou, viu, moveu, aproximou, atou, aplicou, pôs, levou, cuidou, deu, pagou” (Lc 10.33-35). Um caso interessante sobre os samaritanos é o relato dos 10 leprosos curados quando apenas um voltou reconhecendo a graça de Deus, e este, era um samaritano (Lc 17.11-19). 

1.3 - Propósito da parábola. Nenhum outro segmento dos ensinos de Jesus sofre tanto nas mãos de alguns intérpretes como as parábolas. Muitos abordam essa passagem usando o método alegórico, esse, entretanto, não é o método correto de se interpretar uma parábola. O texto mostra nitidamente que ao escriba que queria pegar Jesus em contradição com as minúcias da Lei, é surpreendido pela responsabilidade da graça: “[…] amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo. […] respondeste bem; faze isso, e viverás” (Lc 10.27,28). O doutor da Lei queria manter a discussão em nível teórico e filosófico, mas o Senhor o conduz ao campo prático do amor e da ação em benefício do próximo: “Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira” (Lc 10.37). A parábola do bom samaritano destaca a verdade de que compaixão e cuidado são intrínsecas à fé salvadora e à obediência a Cristo. Amar a Deus deve ser também amar ao próximo: “Mas um samaritano que ia de viagem chegou ao pé dele e, vendo-o, moveuse de íntima compaixão” (Lc 10.33).

II – CARACTERÍSTICAS DO AMOR VERDADEIRO ILUSTRADO NO BOM SAMARITANO
2.1 - Altruísta. Segundo o dicionário (2001, p. 171) a palavra altruísta, quer dizer: “sentimento de quem põe o interesse alheio acima do próprio”, ou seja, uma pessoa altruísta está mais preocupada com o interesse do próximo do que com o seu. O samaritano colocou sua agenda pessoal em segundo plano para servir. Ele “[…] ia de viagem […]” (Lc 10.33), tudo ficou para trás: viagem, negócios, perigo de assaltantes, para salvar aquele homem agonizante. Notemos até que ponto o samaritano ajudou o judeu:

(a) Ele lhe prestou um imediato socorro emergencial;
(b) Ele o levou para uma hospedaria, onde o homem poderia receber os cuidados necessários enquanto convalescia;
(c) Ele pagou a conta antecipadamente; e
(d) Ofereceu mais assistência caso fosse necessária.

Ele não negligenciou nenhum tipo de ajuda que pudesse prestar. Assim sendo, altruísmo é acima de tudo, uma demonstração de amor, pois, o amor não busca os seus interesses (1Co 13.5; Fp 2.4).

2.2 - Empático. Um sentimento que fica evidenciado no samaritano é a empatia, ou seja, “a ação de se colocar no lugar de outra pessoa, buscando agir ou pensar da forma como ela pensaria ou agiria nas mesmas circunstâncias” (Lc 6.31). Sobre ele nos é dito: “[…] vendo-o, moveu-se de íntima compaixão” (Lc 10.33). O samaritano nem procurou saber quem era o necessitado a sua frente, sua religião ou mesmo a sua nação; agiu como que o que se passava fosse com ele mesmo ou um dos seus. Quando temos este amor de Deus servimos bem a todos, servimos bem à obra do Senhor, sem interesse em qualquer recompensa (Mt 7.12 ver ainda Lv 19.18; Mt 22.40; Rm 13.8,10). A ajuda deve ser prática, e não deve consistir simplesmente em sentir pena da pessoa (Tg 2.14-17). É provável que o sacerdote e o levita sentiram algum tipo de dó pelo ferido, mas não fizeram nada. A compaixão, para ser verdadeira, deve gerar atos (Tg 2.26; 1Jo 3.17,18).

2.3 - Imparcial. Quando o doutor da Lei perguntou a Jesus: “quem é o meu próximo” (Lc 10.29), Jesus contou-lhe então a parábola do bom samaritano, demonstrando que o verdadeiro amor não faz acepção de pessoas (Tg 2.1,8,9); pois, o homem que havia sido assaltado e espancado não foi ajudado pelo sacerdote e nem pelo levita, mas, foi socorrido por um samaritano, que não olhou para sua nacionalidade (Lc 10.25-37). Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos são os dois maiores mandamentos na Lei (Mt 22.34-40; Mc 12.28-34; Lc 10.25-27). A acepção de pessoas é uma atitude contrária à lei do amor (At 10.4; Rm 2.11; Ef 6.9; Tg 2.9), por isso, devemos amar a todos (Gl 6.10; 1Ts 3.12), inclusive nossos inimigos (Mt 5.44; Lc 6.27,35). “O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm 13.10). Qualquer pessoa que está em necessidade é nosso próximo, nossa ajuda deve ser tão ampla como o amor de Deus (Jo 3.16).

III – EXORTAÇÕES BÍBLICAS SOBRE O AMOR AO PRÓXIMO
3.1 - Uma evidência do novo nascimento. João deixa bem claro que é impossível dizer que conhecemos a Deus, ou seja, que nascemos de novo, se não amarmos ao próximo. Ele diz: “Nisto são manifestos os filhos de Deus, e os filhos do diabo. Qualquer que não pratica a justiça, e não ama a seu irmão, não é de Deus. Se alguém diz: Eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso. Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” (1Jo 3.10; 4.20). É pelo amor ao próximo que demonstramos que somos nascidos de Deus: “Amados, amemo-nos uns aos outros; porque o amor é de Deus; e qualquer que ama é nascido de Deus e conhece a Deus” (1Jo 4.7). Em outras palavras, o apóstolo está afirmando que, se não amamos, é porque não conhecemos a Deus, ou seja, não somos nascidos dEle (Por mais que entendamos que uma pessoa não regenerada também possa amar seu próximo, pois mesmo depois da Queda, ainda existe, mesmo que manchada, a imagem de Deus nela). Que esta lição sirva de motivação e estímulo para amarmos a Deus e ao próximo.

3.2 - Um mandamento. Amar ao próximo é o segundo mandamento na Lei (Mt 22.35-40). E o apóstolo João reitera este mandamento, quando diz: “E o seu mandamento é este: que creiamos no nome de seu Filho Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, segundo o seu mandamento” (1Jo 3.23). Em outra ocasião um doutor da Lei perguntou a Jesus: “Mestre, qual é o grande mandamento na lei? E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas” (Mt 22.35-40). Portanto, amar não é apenas uma opção, e sim, um mandamento.

3.3 - Caracteriza o autêntico cristão. O amor deve ser a marca distintiva dos seguidores de Cristo. Por isso, como cristãos, nossa responsabilidade não é apenas ensinar ou pregar sobre o amor, mas, acima de tudo, praticar o amor no nosso dia a dia. Jesus disse: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros”. (Jo 13.35). Quem afirma ser cristão, mas tem o coração insensível diante do sofrimento e da necessidade dos outros, demonstra cabalmente que não tem em si a vida eterna (Mt 25.41-46; 1Jo 3.16-20).

CONCLUSÃO
Que cada cristão seja um “bom samaritano” no sentido bíblico; que cada servo de Deus seja uma bênção para seu próximo. O amor ao próximo da parte de Deus abrange todos os homens, sem qualquer distinção de raça, língua e nacionalidade. Neste particular mais uma vez Jesus é o nosso modelo (Jo 13.15).

REFERÊNCIAS
BARCLAY, William. Comentário do Novo Testamento. PDF.
HOWARD, R.E, et al. Comentário Bíblico Beacon. CPAD.
STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

LIÇÃO 07 – PERDOAMOS PORQUE FOMOS PERDOADOS - (Mt 18.21-35) 4º TRIMESTRE DE 2018


Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Pernambuco
Superintendência das Escolas Bíblicas Dominicais
Pastor Presidente: Aílton José Alves
Av. Cruz Cabugá, 29 - Santo Amaro - Recife-PE / CEP. 50.040.000 Fone: 3084.1524 / 3084.1543

LIÇÃO 07 – PERDOAMOS PORQUE FOMOS PERDOADOS - (Mt 18.21-35)
4º TRIMESTRE DE 2018

INTRODUÇÃO
Respondendo um questionamento de um dos discípulos sobre o perdão, Jesus contou a parábola denominada de “credor incompassivo”, cujo ensinamento principal foi de que assim como Deus perdoa as nossas iniquidades, de forma semelhante devemos exercer misericórdia de forma ilimitada para com aqueles que pecam contra nós.

I – INFORMAÇÕES A RESPEITO DESTA PARÁBOLA
1.1 - Curiosidades. Esta parábola destaca-se entre as demais pelas seguintes características:
(a) ela só é encontrada no Evangelho de Mateus (Mt 18.23-35);
(b) está entre as classificadas “parábolas do Reino” (Mt 18.23); e,
(c) é uma das poucas parábolas que trata acerca do perdão (Mt 18.35), a outra está em Lucas 7.41,42.

1.2 - Pano de fundo. O pano de fundo que levou Jesus a contar esta parábola, foi para responder uma pergunta do apóstolo Pedro. Ele queria saber quantas vezes tinha que perdoar esse irmão: “Senhor, até quantas vezes pecará meu irmão contra mim, e eu lhe perdoarei?” (Mt 18.21-b). O Talmude judaico baseado em Amós caps 1 e 2, ensinava que não se devia perdoar ao ofensor além de três vezes (BEACON, 2008, p. 131 – acréscimo nosso). Talvez querendo mostrar-se generoso, Pedro sugeriu: “Até sete?” (Mt 18.21-c), quem sabe aproveitando uma fala de Jesus em outra ocasião, quando disse que devia se perdoar o irmão até “sete vezes no dia” (Lc 17.3,4). No entanto, a resposta de Jesus foi extremamente confrontadora a perspectiva humana sobre o perdão, mostrando que não deve haver limites para exercê-lo: “Não te digo que até sete; mas, até setenta vezes sete” (Mt 18.22). Se sete é um número que representa completude, setenta vezes sete deve ser plenitude absoluta (BOYER, 2009, p. 383).

II – OS PERSONAGENS DA PARÁBOLA
Embora a narrativa parabólica seja fictícia os personagens são figuras presentes do cotidiano de Israel. Vejamos quais os personagens desta parábola:

2.1 - O rei (Mt 18.23). Jesus iniciou esta parábola falando do primeiro personagem: “o reino dos céus pode comparar-se a um certo rei […]” (Mt 18.23-a). É dito que este rei resolveu ajustar as contas com seus servos, a quem ele havia emprestado um dinheiro (Mt 18.23); que ele era generoso (Mt 18.26,33); mas, também justo (Mt 18.32-34).

2.2 - Um servo (Mt 18.23,24). Quando o rei iniciou o trabalho de prestação de contas entre os seus servos “foi-lhe apresentado um que lhe devia dez mil talentos” (Mt 18.24-b). Sua dívida era muito grande visto que “um talento era o valor equivalente a seis mil denários, o que equivalia a seis mil dias úteis de trabalho ou trinta anos de trabalho. Um único talento era quase a renda de uma vida inteira” (ROBERTSON, 2011, p. 209). Na parábola é dito que ele não tinha com que pagar (Mt 18.25-a). Diante disso, o rei, valendo-se da Lei de Moisés (Êx 22.3; Lv 25.39,47), ordenou que este servo e toda a sua família fossem seus servos a fim de quitar a dívida (Mt 18.25). Ao saber que ele toda a família serviriam ao rei, este servo prostrou-se diante do rei e apelou para a sua misericórdia, rogando-lhe que lhe desse mais tempo para salvar a dívida completamente (Mt 18.26). Diante do pedido do servo, o rei, movido de íntima compaixão, decidiu perdoá-lo da dívida: “Então o senhor daquele servo, movido de íntima compaixão, soltou-o e perdoou-lhe a dívida” (Mt 18.27). Sobre este servo é dito que era apto a pedir misericórdia, mas não de exercer misericórdia (Mt 18.26,33). Por causa dessa atitude ele é chamado pelo rei de “servo malvado” (Mt 18.32-a).

2.3 - O conservo (Mt 18.28). Ao sair da presença do rei com a sua dívida perdoada, o servo encontrou-se com um dos seus conservos (Mt 18.28); e, ao abordá-lo cobrou lhe os “cem dinheiros” ou “cem denários”, que este lhe devia: “e, lançando mão dele, sufocava-o, dizendo: Paga-me o que me deves” (Mt 18.28-b). O denário equivalia a um dia de trabalho (Mt 20.2) (CHAMPLIN, 2004, p. 474). O conservo diante da cobrança se humilhou e rogou misericórdia para poder saldar o seu débito “[...] prostrando-se a seus pés, rogava-lhe, dizendo: Sê generoso para comigo, e tudo te pagarei” (Mt 18.29). No entanto, seu pedido por generosidade foi negado, e ele foi sentenciado a prisão, até que quitasse a dívida (Mt 18.30). Embora estivesse em seu poder perdoar o conservo, este homem o negou: “Ele, porém, não quis […]” (Mt 18.30). Vejamos abaixo as diferenças entre o servo e o conservo:

SERVO
Foi chamado pelo rei para prestar contas (Mt 18.23,24)
Devia dez mil talentos (Mt 18.24)
Prostrou-se para pedir tempo para pagar e foi perdoado (Mt 18.25-27)

CONSERVO
Foi abordado com violência pelo seu senhor (Mt 18.28)
Devia cem dinheiros (Mt 18.28)
Prostrou-se para pedir tempo para pagar e foi preso (Mt 18.29,30)

III – ENTENDENDO QUEM OS PERSONAGENS REPRESENTAM
Nem sempre os personagens de uma parábola tem significação. No entanto, nesta, percebemos que Cristo lhes dá um sentido. Vejamos:

3.1 - Deus é o rei (Mt 18.35). Embora nem sempre nas parábolas cada personagem tenha um significado, nesta especificamente, fica claro que o “rei” é uma figura de Deus, como o próprio Jesus aplica (Mt 18.35). O rei é o principal chefe ou governante de uma tribo ou nação” (CHAMPLIN, 2004, p. 617). O título de rei, nas Escrituras, tanto é aplicado ao Pai (Sl 10.16; 145.13; Jr 10.10) como ao Filho (Ap 17.14; 19.16). O monarca desta parábola retrata o caráter divino pois é apresentado como um rei que:

(a) se compadece: “movido de íntima compaixão” (Ef 2.4,5; Tt 3.5; 1 Pd 2.10; Sl 103.13; Rm 12.1);
(b) liberta: “soltou-o” (Ef 1.7; 1 Pd 1.18,19; Lv 17.11); e,
(c) perdoa: “e perdoou-lhe a dívida” (Is 55.7; 1 Jo 1.9).

Sua bondade em perdoar o servo de sua dívida e sua justiça e juízo de puní-lo por negar misericórdia ao conservo retratam perfeitamente o caráter divino que está disposto a perdoar o pecador arrependido (Mt 9.13; Lc 5.32; Rm 11.32), mas também de punir ao pecador perdoado que se recusa liberar perdão (Mt 6.15; 18.34,35; Mc 11.26).

3.2 - Nós somos os servos (Mt 18.23,35). Os servos do rei são todos aqueles que se submeteram a Cristo como Senhor e Salvador. Isto fica evidente no início da parábola, quando Jesus está falando do Reino de Deus aos súditos desse Reino, ou seja, seus discípulos (Mt 18.23). Assim como este servo tinha uma dívida da qual não tinha condições de pagar ao rei e clamando por misericórdia foi perdoado, ele retrata a nossa condição de pecadores diante de Deus (Rm 3.23) que somente por Sua imensurável graça poderíamos ser restaurados, pois o pecado é uma dívida que o homem contrai, para a qual o único recurso é o perdão (Cl 2.13; 1 Jo 1.9; 2.12).

3.3 - O conservo é o nosso irmão (Mt 18.28,35). O conservo da parábola é o nosso irmão, isto fica claro, a luz do contexto, ou seja, do texto que precede a parábola, quando vemos Jesus falar sobre o tratamento que se deve a “um irmão que peca contra o outro” (Mt 18.15). O rei perdoou o servo a sua dívida e esperava que ao menos o servo perdoado pudesse fazer o mesmo com o seu conservo, por isso disse “Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti?” (Mt 18.33). Não podemos agir com o nosso irmão diferente da forma como Deus age conosco (Lc 10.27). Isto Jesus ensinou quando disse “e, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas” (Mc 11.25). O apóstolo Paulo também firmou: “como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também” (Cl 3.13; Ef 4.32); os demais apóstolos transmitiram o mesmo ensino (1 Pd 2.21; 1 Jo 1.7; 4.7).

IV – O PRINCIPAL ENSINAMENTO DESTA PARÁBOLA: O PERDÃO
Mateus registrou os ensinamentos de Jesus mais diretamente relacionados com a conduta dos seus discípulos como membros do Reino trazido à terra por Ele. O reino dos céus tem valores essencialmente diferentes dos que caracterizam as instituições terrenas e as organizações seculares. A sociedade dos perdoados fica sem sentido, se os que são perdoados não perdoam (TASKER, 2006, p. 138). O verbo “perdoar” significa: “renunciar a punir; desculpar; poupar; ver com bons olhos” (HOUAISS, 2001 p. 2185). Sobre o perdão, Jesus ensinou que:

4.1 - O perdão não deve ser limitado (Mt 18.21,22). A resposta de Jesus a pergunta de Pedro quantas vezes se devia perdoar o irmão ofensor com a sugestão de “até sete” (Mt 18.21-c), teve como resposta do Mestre “até setenta vezes sete” (Mt 18.22), o que significa dizer: de forma ilimitada. Assim como Deus amou o mundo de maneira ilimitada (Jo 3.16), devemos reproduzir este amor nos nossos relacionamentos (1 Jo 3.16).

4.2 - O perdão não deve ser negado (Mt 18.35-a). Jesus ensinou que não podemos negar o perdão aquele que arrependido nos rogar, tendo como base o caráter generoso do próprio Deus, que sempre nos perdoa quando sinceramente lhe pedimos. A Bíblia diz que Ele “está pronto a perdoar” (Sl 86.5); e, que é “grandioso em perdoar” (Is 55.7). Veja ainda: (2 Cr 7.14; Pv 28.13; 55.7; 1 Jo 2.1). Portanto, quando perdoamos nos assemelhamos a Deus (Lc 6.36; Ef 4.32 Cl 2.13; 1 Jo 1.9; 2.12).

4.3 - O perdão não deve ser superficial (Mt 18.35-b). Perdoar é mais que palavras (1 Jo 3.18). Jesus ensinou que é preciso que o perdão brote do coração, ou seja, do íntimo do nosso ser (Mt 18.35-b). A Bíblia diz que não podemos guardar ira no coração (Ef 4.26; Tg 3.14), nem permitir que nele brote raiz de amargura (Ef 4.31; Hb 12.15). Como é nele que pode se formar o ódio é nele que o perdão deve nascer a fim de curar o mal em sua nascente. Ainda sobre o perdão é preciso destacar que:

(a) é uma condição para permanecermos em comunhão Deus (Mt 6.12,14-15; 18.35; Mc 11.25,26);
(b) ele revela se somos autênticos cristãos (Mt 3.8; 7.20; 12.33; Lc 6.44; Gl 5.22); e,
(c) ele é condição para Deus receber a nossa oferta (Mt 5.23,24).

CONCLUSÃO
Jesus ensinou que as ofensas que os homens cometem uns contra os outros são mínimas em comparação às ofensas que todos cometem contra Deus. Se Ele nos perdoa por Sua graça, devemos tratar o nosso próximo com a mesma graça.

REFERÊNCIAS
BOYER, Orlando. Espada Cortante. CPAD.
CHAMPLIN, R. N. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia. HAGNOS.
HOUAISS, Antônio. Dicionário da Língua Portuguesa. OBJETIVA.
HOWARD, R.E, et al. Comentário Bíblico Beacon. CPAD.
ROBERTSON, A.T. Comentário de Mateus e Marcos. CPAD.
STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

LIÇÃO 06 – SINCERIDADE E ARREPENDIMENTO DIANTE DE DEUS - (Lc 18.9-14) 4º TRIMESTRE DE 2018


Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Pernambuco
Superintendência das Escolas Bíblicas Dominicais
Pastor Presidente: Aílton José Alves
Av. Cruz Cabugá, 29 - Santo Amaro - Recife-PE / CEP. 50.040.000 Fone: 3084.1524 / 3084.1543

LIÇÃO 06 – SINCERIDADE E ARREPENDIMENTO DIANTE DE DEUS - (Lc 18.9-14)
4º TRIMESTRE DE 2018

INTRODUÇÃO
Nesta lição, veremos quem eram os fariseus e os publicanos; definiremos um contraste das palavras arrogância e humildade; veremos algumas características negativas do caráter do fariseu; e por fim, notaremos um contraste entre a oração do publicano e do publicano.

I - QUEM ERAM OS FARISEUS E OS PUBLICANOS
Jesus proferiu três parábolas relacionadas com a oração que são respectivamente:

(a) o amigo importuno (Lc 11.5-13);
(b) o juiz iníquo (Lc 18.1-8); e,
(c) o fariseu e o publicano (Lc 18.9-14).

A parábola do fariseu e o publicano é constituída de duas orações feitas por dois homens com dois resultados diferentes. Vejamos alguns detalhes sobre estes dois personagens:

1.1 - Os fariseus. Eram de uma seita judaica que surgiu na segunda metade do período interbíblico (tempo que decorreu entre o encerramento do AT e o início do NT, entre Malaquias e Mateus). No início da formação da seita, os fariseus eram devotos e fiéis, visando conservar viva a fé em Deus, a obediência à sua Lei, manter a pureza moral e espiritual e fortalecer a esperança messiânica (GILBERTO, 1990, p. 7). Não tardou muito e os fariseus tornaram-se legalistas, formalistas e hipócritas, dando mais valor à tradição do que às Sagradas Escrituras. Ao longo de seu ministério público, Jesus condenou a hipocrisia e a incredulidade dos fariseus (Lc 11.39-54). Descreveu-os como devedores falidos, incapazes de pagar sua dívida a Deus (Lc 7.40-50), convidados brigando pelos melhores lugares (Mt 23.13-39; Lc 14.7-14) e filhos orgulhosos de sua obediência, mas alheios às necessidades dos outros (Lc 15.25-32) (WIERSBE, 2007, vol. 1, p. 323).

1.2 - Os publicanos. Eram judeus cobradores de impostos e por isso eram odiados e tidos como traidores porque trabalhavam para Roma que ocupava a terra dos judeus. O termo publicano vem do latim “publicum” porque seu trabalho estava ligado à renda pública. Geralmente eles extorquiam dinheiro, cobrando a mais, e aceitavam suborno dos ricos (Lc 3.12,13; 19.1-10). Eram comparados a:

(a) pecadores (Mt 9.10-13; Lc 15.1);
(b) meretrizes (Mt 21.31); e,
(c) gentios (Mt 10.18; 1Ts 4.5).

Eram ainda tidos como impuros porque estavam sempre em contato com gentios (GILBERTO, 1990, p. 7).

II - CONTRASTE ENTRE ARROGÂNCIA E A HUMILDADE
2.1 - Arrogância. Segundo o dicionarista Houaiss (2001, p. 303), arrogância significa: “ato de atribuir a si mesmo privilégio; atitude prepotente de desprezo com relação aos outros; atitude desrespeitosa e ofensiva em atos ou palavras; orgulho ostensivo; soberba; altivez; insolência; atrevimento”. O termo deriva-se do hebraico “zadôn” e significa altivez, orgulho ou soberba (Ml 4.1; Sl 119.51,69,78,122; Jr 43.2). O orgulho é um pecado e é abominável diante de Deus (Pv 6.16,17; 21.4). No NT o termo é “alazonia”, que é traduzido por soberba ou orgulho (1Tm 3.6; 1Jo 2.16). É esta obra da carne que podemos ver na pessoa do fariseu.

2.2 - Humildade. Segundo o dicionarista Houaiss (2001, p. 1555), humildade significa: “virtude caracterizada pela consciência das próprias limitações; simplicidade; sentimento de fraqueza e inferioridade com relação a alguém; ausência completa de orgulho; rebaixamento voluntário por um sentimento de fraqueza ou respeito; modéstia; ausência de orgulho, soberba ou vaidade”. O termo deriva-se do hebraico “ãnãw”, que quer dizer “humilde” e “ãnãwâ” que significa “humildade” (Jó 22.29; Sl 10.12; 138.6; Pv 11.2; 14.21; 15.33; 16.19; 18.12). Nas páginas do NT o termo é “tapeinos” (Mt 11.29; Lc 1.52; Rm 12.16; 2Co 7.6; Tg 4.6; 1Pe 5.5). A humildade está associada a uma consciência de que tudo que temos ou somos vem do Senhor (Pv 15.33; 18.12; 22.4; 1Pe 5.5). É este fruto do Espírito que podemos ver na pessoa do publicano.

III - CARACTERÍSTICAS DO FARISEU
O fariseu da parábola tinha religião e religiosidade, mas voltou vazio do templo, porque tudo quanto ele apresentava era mera aparência, estando seu coração tão somente cheio de orgulho e de autojustiça. Ele apenas parecia justo diante dos outros, mas no seu coração nem amava a Deus, nem ao próximo. A autojustiça do ser humano é um mal universal: “Cada qual entre os homens apregoa a sua bondade […]” (Pv 20.6). Jesus usa o método de ensino comparativo, mediante contrastes. Notemos:

3.1 - Confiava em si mesmo. O fariseu usava a oração como forma de obter reconhecimento público, não como exercício espiritual para glorificar a Deus (Mt 6.5; 23.14) Os fariseus eram o verdadeiro exemplo daqueles que “[…] uns que confiavam em si mesmos” (Lc 18.9-a). É o erro de confiar no nosso “eu”: “Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo […]” (Lc 10.29). É um grande erro confiar em sua própria justiça: “E disse-lhes: Vós sois os que vos justificais a vós mesmos diante dos homens, mas Deus conhece o vosso coração, porque o que entre os homens é elevado perante Deus é abominação” (Lc 16.15). Outras coisas fracas em que não devemos confiar são:

(a) nas riquezas (Mc 10.24);
(b) nos homens (Jr 17.5;3);
(c) nos “muros” da vida (Dt 28.52; 4);
(d) nos carros e cavalos (Sl 20.7);
(e) nas palavras falsas (Jr 7.8,6);
(f) na formosura (Ez 16.15); e,
(g) na armadura humana (Lc 11.22).

3.2 - Acreditava que era justo. Em sua oração, em momento algum ele confessou seus pecados e mostrou arrependimento. O fariseu alimentava uma falsa fé quanto à justiça: “[…] crendo que eram justos […]” (Lc 18.9-b). Essa parábola é uma grande advertência sobre autojustiça durante a oração. Aqui está uma das razões de muitas orações não respondidas: irmos a Deus julgando-nos merecedores de alguma coisa, porque somos justos (Is 64.6; Fp 3.8,9). Tudo recebemos de Deus como resultado do seu amor gracioso (Dt 7.6-8; Tt 3.5-7). O fariseu estava em pé de modo soberbo, exibicionista e denotando superioridade e isso revelou o seu caráter: “[…] não sou como os demais homens roubadores, injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano” (Lc 18.11-b) (WIERSBE, 2007, vol. 1, p. 323).

3.3 - Desprezava os outros. Os outros que não pareciam “justos” a seus próprios olhos, como os fariseus, e quem não agisse como eles eram tidos como pecadores (Lc 5.30; 18.11). Os fariseus se sentiam superiores e mais santos do que os demais homens: “[…] e desprezavam os outros” (Lc 18.9-c). O termo como está no versículo 9 significa: “não fazer caso de alguém, não dar importância, rejeitar, discriminar, considerar o próximo como nada”. Algo muito parecido com o que o Senhor falou pelo profeta Isaías: “E dizem: retira-te, e não te chegues a mim, porque sou mais santo do que tu […]” (Is 65.5). Quem se entrega a Cristo para obter Sua justiça, reconhece que nada é em si mesmo, e sempre está pronto a admitir que os outros são melhores do que ele. Um verdadeiro filho de Deus não despreza ninguém: “Tu também, por que desprezas teu irmão?’’ (Rm 14.10). O orgulho do fariseu condenou-o, mas a fé humilde do publicano o salvou (ver Lc 14.11 e Is 57.15).

IV – CONTRASTE ENTRE A ORAÇÃO DO FARISEU E DO PUBLICANO
Vejamos alguns contrastes entre as orações do fariseu e do publicano:

4.1 - A oração do fariseu. O fariseu agradece a Deus por não ser como os demais homens. Isso significa que ele atribuía a Deus a sua maneira hipócrita de ser, sua autossuficiência de justiça: “Ó Deus Graças te dou […]” (Lc 18.11-a). Ora, agradecer a Deus por isso, significa realmente acusá-lo. Ele estava prestando um relatório dos outros a Deus, e não orando: “[…] não sou como este publicano”. Vemos aqui sua atitude de desprezo pelo próximo, e seu orgulho pessoal. A outra evidência do seu orgulho perverso está nas palavras de Jesus concernentes a esta oração: “[…] qualquer que a si mesmo se exalta” (Lc 18.14). Até aqui o fariseu diz a Deus o que ele era, mas no versículo 12 ele passa a dizer o que ele faz. A sua oração só continha informação e ele jejuava por formalidade; não por necessidade e voluntariamente.

4.2 - A oração do publicano. O caso do publicano ensina-nos como disse o salmista: “a um coração contrito não desprezarás, ó Deus” (Sl 51.17). “O publicano, porém, estando em pé […]” (Lc 18.13). A construção verbal como está no original, denota atitude humilde, sem qualquer ostentação. O texto ainda diz que o publicano orava “de longe” isto é, longe do templo propriamente dito. No templo mesmo só entravam os sacerdotes para lá ministrar. Em volta do templo havia várias áreas chamadas átrios, onde ficava o povo, dependendo do seu grupo. O átrio onde se fazia oração era o das mulheres. O fariseu postou-se na extremidade desse átrio, próximo ao templo. O publicano postou-se na outra extremidade, distante do templo, reconhecendo a indignidade de aproximar-se do santo lugar (Is 6.5-7; 1Tm 1.15). O publicano: “nem ainda queria levantar os olhos aos céus”. O publicano, de tão convicto, vendo que suas palavras não eram suficientes para expressar o seu arrependimento, batia no peito, mostrando que sua oração partia de um coração quebrantado: “[…] mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador!” (Lc 18.3-c). Isso fala de lamento, pesar, aflição (Lc 23.48; Jr 31.19; Na 2.7).

V - LIÇÕES DA PARÁBOLA DO FARISEU E O PUBLICANO
Podemos refletir sobre algumas lições práticas importantes que esta parábola nos ensina. Vejamos:

5.1 - Deus não se impressiona. O fariseu tentou impressionar a Deus; ele fez isso se comparando às outras pessoas e mostrando o quanto era superior a elas. Ele se julgava diferente e acima de todos. O publicano, por sua vez, também se comparou às outras pessoas, mas ele se julgou inferior a todas elas. Ele classificou-se a si mesmo como “o pecador”. O apóstolo Paulo também fez o mesmo: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar pecadores, dos quais eu sou o principal” (1Tm 1.15).

5.2 - Deus não dá Sua glória a ninguém. A oração do publicano expressa uma verdade presente em toda a Bíblia, declarando que a salvação, do início ao fim, pertence a Deus e é atribuída à Sua misericórdia e graça (Sl 51.1; Lc 18.13; Ef 2.8; Tt 3.5). O homem é incapaz de justificar-se a si mesmo. A oração do fariseu aparentemente parecia ser uma oração de gratidão. Aos olhos humanos, tal oração poderia realmente representar as palavras de alguém justo e distinto por sua religiosidade. Porém, aos olhos de Deus, tal oração era uma afronta, uma ofensa, pois na verdade ela atacava a glória de Deus.

5.3 - Elogio humano pode ser perverso e enganoso. Quando o fariseu começou a se autocongratular, ele disse que não era um ladrão, um desonesto e um adúltero. Tudo o que o fariseu dizia não ser, na verdade, ele era. O fariseu era o ladrão que naquele exato momento roubava a glória de Deus nas palavras de sua oração. Ele era o homem desonesto que defraudava a si mesmo. Por último, ele era o adúltero culpado do pior de todos os adultérios, ao apostatar do verdadeiro Deus (Os 1.2; 5.3).

CONCLUSÃO
A Parábola do fariseu e o publicano nos convida a fazer um importante autoexame. Devemos olhar para nossas vidas e avaliar nossa conduta diante da Palavra de Deus, afinal, fariseus e publicanos continuam espalhados por todos os lugares.

REFERÊNCIAS
GILBERTO, Antônio. Lições Bíblicas Maturidade Cristã. CPAD
HOWARD, R.E, et al. Comentário Bíblico Beacon. CPAD.
STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
LOCKYER, Herbert. Todas as Parábolas da Bíblia. VIDA
WIERSBE, Warren W. Comentário Bíblico Expositivo Novo Testamento. GEOGRÁFICA.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

LIÇÃO 05 – AMANDO E RESGATANDO A PESSOA DESGARRADA - (Lc 15.3-10) 4º TRIMESTRE DE 2018


Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Pernambuco
Superintendência das Escolas Bíblicas Dominicais
Pastor Presidente: Aílton José Alves
Av. Cruz Cabugá, 29 – Santo Amaro – Recife-PE / CEP. 50.040.000 Fone: 3084.1524 / 3084.1543

LIÇÃO 05 – AMANDO E RESGATANDO A PESSOA DESGARRADA - (Lc 15.3-10)
4º TRIMESTRE DE 2018 

INTRODUÇÃO
Nesta lição estudaremos duas das parábolas mais conhecidas registradas no Evangelho escrito por Lucas; pontuaremos também algumas de suas principais características, para melhor compreensão de sua mensagem; e por fim, veremos qual a devida aplicação dessa mensagem para a igreja atual.

I – A PARÁBOLA DA OVELHA PERDIDA
Nenhum outro capítulo do Novo Testamento é tão conhecido e tão querido como o décimo quinto de Lucas, de modo a ser chamado de: “o evangelho no evangelho” (BARCLAY, sd, p. 174). A história da ovelha perdida que nesse capítulo está registrada, tem um paralelo em Mateus 18.10-14, cujo contexto focaliza no desejo do Pai celestial de que: “Assim, também, não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca” (Mt 18.14). Em Lucas, o foco está na ação graciosa de Deus que vai em busca do perdido, no arrependimento como o caminho de volta do pecador ao pai e a sua respectiva aceitação (Lc 15.7,10,18,19,21). Vejamos ainda algumas considerações sobre esta parábola:

1.1 - A motivação do anúncio da parábola. O fato de Cristo ser procurado pelos publicanos e pecadores (Lc 15.1), bem como a Sua atitude de em recebê-los comendo com eles (Lc 15.2), resultou na murmuração dos fariseus e escribas. O ódio desses religiosos pelos publicanos e pecadores é bem conhecido nas Escrituras (Mt 9.10,11; Mc 2.15,16; Mt 18.9-11). Eles sentiam que qualquer um que se associasse com estas pessoas desprezadas, o fazia por ter o mesmo caráter. Diante disso, o Senhor Jesus passa a ilustrar e consequentemente justificar o porque de sua atitude amorosa, e qual o sentimento que deveria existir nos fariseus e escribas em relação a estas pessoas.

1.2 - O objetivo da parábola. Os fariseus e escribas reputavam aos publicanos e pecadores como pessoas indignas do amor de Deus. Os publicanos (cobradores de impostos) não eram tidos em alta estima, porque não somente auxiliavam os romanos que subjugava os judeus, mas também enriqueciam ilicitamente as custas de seus patrícios (Lc 19.2,8). Já os pecadores eram assim chamados porque não interpretavam a Lei como os escribas e fariseus ou exerciam profissões pouco honrosas. Para corrigir a visão distorcida daqueles em relação aos pecadores, Jesus conta neste capítulo três parábolas (ovelha e moeda perdida e do filho pródigo) que expressam o grande amor de Deus pelos perdidos, mostrando que estes são amados e podem ser aceitos pelo Senhor mediante o arrependimento (Lc 15.7,10,32).

1.3 - Personagens da parábola. A figura usada por Jesus nessa parábola é algo muito comum para seus ouvintes, é provável que enquanto ele a contava, era possível ver naquela região de forma muito familiar os pastores cuidando de suas ovelhas. A ovelha da história perdeu-se por irracionalidade. Esses animais têm a tendência de se desencaminhar, por isso precisam de um pastor (Is 53.6; 1Pe 2.25). A imagem do pastor e as ovelhas é muito comum desde o AT para ilustrar o cuidado de Deus para com os seres humanos (Sl 23.1; Jr 23.1-4; Is 40.11; Ez 34.11-16; 37.24).

II – A PARÁBOLA DA DRACMA PERDIDA
As narrativas desse capítulo podem também ser chamadas de: “As Parábolas dos Quatro Verbos – Perder, Procurar, Encontrar, Regozijar-se”. Esses quatro verbos certamente resumem a dinâmica do texto. A mensagem central desta parábola é a mesma da ovelha perdida, e a respeito da parábola da dracma perdida, pontuamos duas informações adicionais:

2.1 - Estrutura da parábola. As duas parábolas iniciais desse capítulo possuem uma estrutura semelhante:

(a) uma breve indicação dos personagens: “Que homem dentre vós […]” (Lc 15.4-a), “Ou qual a mulher […]” (Lc 15.8-a);
(b) uma declaração da perda: “[…] perdendo uma delas [ovelha]” (Lc 15.4-b), “[…] se perder uma dracma” (Lc 15.8-b);
(c) uma pergunta retórica: “[…] e não vai após a perdida até que venha a achá-la?” (Lc 15.4-c), “[…] e busca com diligência até a achar?” (Lc 15.8-c);
(d) uma reação: “E achando-a [ovelha], a põe sobre os seus ombros, cheio de júbilo […]” (Lc 15.5), “E achando-a, […] alegrai-vos comigo, porque já achei a dracma perdida” (Lc 15.9); e,
(e) uma afirmação conclusiva: “[…] assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.7), “Assim vos digo que há alegria diante dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende” (Lc 15.10).

2.2 - Propósito da parábola. Esta parábola da dracma perdida repete o significado da primeira, no entanto, com uma ilustração diferente. A ovelha perdeu-se por não ter racionalidade, mas a moeda foi perdida por causa do descuido de alguém. A moeda perdida deveria estar com as outras nove, a intensa busca da mulher em procurar a dracma, expressa a intensidade da preocupação de Deus para recuperar os perdidos (Lc 19.10: Jo 10.16). Logo, há mais alegria no céu por um pecador encontrado: “Digo-vos que assim haverá alegria no céu por um pecador que se arrepende, mais do que por noventa e nove justos que não necessitam de arrependimento” (Lc 15.7), isso não quer dizer no entanto, que os justos não sejam amados, pois estes estão seguros condicionalmente no aprisco (Lc 15.4; Jo 10.28,29); mas, que a alegria nesse contexto está reservada para aqueles que são encontrados depois que estiveram perdidos, e é isso que é peculiar sobre esta apresentação do Reino de Deus nessa parábola (NEALE, 2015, pp. 168,169 – acréscimo nosso).

III – A PARÁBOLA DA OVELHA E DA DRACMA PERDIDA E SUA APLICAÇÃO PARA A IGREJA
Um notável traço das parábolas é o fato de retratarem a realidade espiritual do ser humano, como também o caráter e a obra de Cristo, e por inferência o papel da igreja no Reino de Deus. Notemos algumas dessas verdades:

3.1 - A necessidade do homem perdido. Tudo o que Deus criou, o fez perfeitamente (Gn 1.31; Ec 7.29). Contudo, por causa do mal uso do livre-arbítrio, o pecado teve o seu lugar na humanidade, manchando (não destruindo) a imagem de Deus (imago Dei) no homem. Em Efésios 2.3 diz o apóstolo Paulo que os efésios eram: “por natureza” filhos da ira, como também os demais”. Nesta passagem a expressão “por natureza” indica uma coisa inata e original, em distinção daquilo que é adquirido (Is 53.6). Então, o pecado é uma coisa da própria natureza humana, da qual participam todos os homens e que os fazem culpados diante de Deus (Is 59.16; Rm 5.12-14), por isso, que todos os homens se acham sob condenação e necessitam da redenção (BERKHOF, 2000, p. 235).

3.2 - O amor de Deus pelos perdidos. As parábolas deste capítulo ilustram a consideração de Deus pelos perdidos. Essa narrativa nos dá um quadro impressionante da própria missão de Jesus na terra. Ele veio em busca das ovelhas perdidas, este foi o seu objetivo por todos os lugares onde passou (Mt 9.36; 14.14; Lc 19.10: Jo 4.4). Em cada caso aquele que estava perdido era considerado precioso, valia a pena buscá-los, e também valia a pena se alegrar quando eram encontrados. Jesus estava dizendo que Deus procura os pecadores perdidos! Não é de se admirar que os escribas e fariseus tivessem ficado ofendidos, pois em sua teologia legalista não havia lugar para um Deus desse tipo. Haviam esquecido que Deus procurou Adão e Eva quando pecaram e se esconderam dele (Gn 3.8,9). Apesar de seu suposto conhecimento das Escrituras, os escribas e fariseus se esqueceram que Deus é como um Pai que se compadece de seus filhos rebeldes (Sl 103.8-14).

3.3 - A ação de Deus pelos perdidos. Devido à pecaminosidade do homem, este estava destinado a condenação eterna (Jo 3.18; Rm 3.23; Ef 2.3). Mas, apesar dessa condição, Deus por Sua graça e misericórdia (Ef 2.4,5) estabeleceu um projeto salvífico para resgatar o homem (Gn 3.15; Jo 3.16; Ap 13.8). O projeto de restauração do homem, tem como fonte a pessoa de Deus (Is 45.22; Tt 2.11). Na condição de pecador, o homem jamais por si só produziria a sua salvação (Rm 3.10,11; Tt 3.5), por essa razão vemos partindo sempre de Deus a iniciativa de resgatar o homem (Gn 3.9;15,21). A Bíblia diz que: “Deus amou”; “Deus deu”; “Deus enviou” (Jo 3.16,17). Paulo diz ainda que: “[…] a graça de Deus se manifestou […] (Tt 2.11); e que: “tudo isto provém de Deus” (2Co 5.18-a). Deus, por Sua maravilhosa graça decidiu soberanamente salvar o homem caído em pecado, por meio de Jesus Cristo: “Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo […]” (2Co 5.19), esperando do homem em resposta a essa graça, arrependimento e fé (Mc 1.15; At 2.38; 3.19; 2 Co 7.10; Mc 16.16; Rm 10.9; Ef 2.8).

3.4 - A igreja e a busca pelos perdidos. Segundo Horton (2006, pp. 299,300), “a Igreja é uma comunidade formada por Cristo em benefício do mundo. Cristo entregou-se em favor da Igreja, e então a revestiu com o poder do dom do Espírito Santo a fim de que ela pudesse cumprir o plano e propósito de Deus”. Uma igreja que não tem a sensibilidade de ir em busca dos perdidos, está perdida em si mesma, visto que um dos motivos pelos quais a igreja existe, é para evangelizar afirmou o apóstolo Pedro: “Mas vós sois a geração eleita, o sacerdócio real, a nação santa, o povo adquirido, para que anuncieis as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1Pe 2.9). A Igreja tem diversas atribuições, no entanto, a mais excelente delas é a que justifica a sua presença aqui na terra: a sublime tarefa da evangelização (Mt 28.16-20; Mc 16.15).

CONCLUSÃO
Fica claro por meio dessas duas parábolas o amor de Deus pelos pecadores. Como também uma mensagem bem definida para a igreja atual, que como corpo de Cristo, devemos buscar os que estão perdidos e lhes anunciar a boas novas de salvação. O fervor que Jesus demonstrou deve arder em cada um de nós, e nos alegrarmos com os anjos de Deus pelo pecador que se arrepende.

REFERÊNCIAS
BARCLAY, William. Comentário do Novo Testamento. PDF
BERKHOF, Louis. Teologia Sistemática. CULTURA CRISTÃ.
HOWARD, R.E, et al. Comentário Bíblico Beacon. CPAD.
HORTON, Stanley. Teologia Sistemática. CPAD.
NEALE, David. A. Novo Comentário Bíblico Beacon. CENTRAL GOSPEL.
STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.

segunda-feira, 22 de outubro de 2018

LIÇÃO 04 – PERSEVERANDO NA FÉ - (Lc 18.1-8) 4º TRIMESTRE DE 2018


Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Pernambuco
Superintendência das Escolas Bíblicas Dominicais
Pastor Presidente: Aílton José Alves
Av. Cruz Cabugá, 29 - Santo Amaro - Recife-PE / CEP. 50.040.000 Fone: 3084.1524 / 3084.1543

LIÇÃO 04 – PERSEVERANDO NA FÉ - (Lc 18.1-8)
4º TRIMESTRE DE 2018

INTRODUÇÃO
A presente lição comentará uma das mais conhecidas parábolas de Jesus: “a parábola do juiz iníquo”, que fala sobre a importância da perseverança na oração; trataremos desta parábola, destacando o seu propósito, personagens, narrativa e a devida aplicação para a nossa vida devocional.

I – ENTENDENDO A PARÁBOLA
A narrativa parabólica do capítulo 18 de Lucas, tem algumas coisas interessantes que merecem ser destacadas. Vejamos: (a) consta somente no evangelho conforme Lucas (Lc 18.1-9); (b) tem como epígrafe “o juiz iníquo” e não a “viúva perseverante” o que deveria ser pois, trata da perseverança desta; e, (c) junto com a parábola do amigo persistente (Lc 11.5-8), pretendem “ensinar a respeito da oração”. Abaixo destacaremos algumas outras importantes informações sobre esta narrativa. Notemos:

1.1 - O propósito da parábola (Lc 18.1). Assim como toda parábola contada por Jesus tinha um propósito específico, esta do capítulo 18 de Lucas segue a mesma regra. O versículo primeiro mostra o que motivou Jesus a contar esta parábola: “E contou-lhes também uma parábola sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer” (Lc 18.1). Deus certamente responderá, mesmo que pareça, por algum tempo, que Ele não nos ouve quando pedimos.

1.2 - Os personagens da parábola (Lc 18.2-5). Dois personagens embora reais na cultura judaica, são utilizados hipoteticamente nesta parábola. Vejamos cada um detalhadamente:

1.2.1 - O juiz. O primeiro personagem que aparece na parábola é “o juiz” (Lc 18.2). Estes eram os indivíduos que tomavam decisões sobre questões civis e religiosas, as palavras envolvidas falam sobre a tentativa de determinar causas (Êx 18.13) (CHAMPLIN, 2004, p. 636). Nos tempos de Moisés, conforme os registros bíblicos, eles assumiam uma grande responsabilidade na aplicação da lei (Êx 18.20; Dt 1.13,15; Dt 16.19). Deus determinou que em cada cidade deveria ter um juiz (Dt 16.18). Exigia-se deles que fossem leais no julgamento das causas do povo (Êx 18.21,22; Dt 1.16,17). No entanto, há registros bíblicos de corrupção nesta função. A exemplo disto temos os dois filhos de Samuel, que foram nomeados por ele como juízes, em Berseba, mas eles perverteram o ofício e aceitavam suborno (1 Sm 8.3). Por isso, quando na parábola Jesus diz que este juiz “nem a Deus temia, nem respeitava o homem” (Lc 18.2-b), podia estar fazendo alusão a corrupção que havia em sua época com esta classe de pessoas. Definitivamente de uma pessoa mau caráter como esta, não se podia esperar justiça nem compaixão.

1.2.2 - A viúva. O segundo personagem que aparece na parábola é “a viúva” (Lc 18.2). A viúva aparece aqui como símbolo daqueles que precisam ser defendidos contra a exploração alheia, alguém relativamente sem defesa, verdadeiramente dependente da bondade de terceiros para a sua sobrevivência. A viúva, assim como órfão, o pobre e o deficiente estavam entre a classe de pessoas das quais Deus concedia uma atenção especial (Êx 23.6; Lv 19.14; Dt 24.17; 27.18). Com frequência, a viúva era tratada pelo povo de Israel com deslealdade, por isso na lei de Moisés encontramos diversas recomendações quanto ao cuidado que se deveria ter com elas (Êx 22.22; Dt 24.19-21). Deus inclusive orientou que não se deveria perverter o direito da viúva (Dt 24.17), e o que não cumprisse isto seria passivo de maldição (Dt 27.19). Os profetas protestaram contra o povo de Israel quando desconsideravam o direito da viúva (Is 1.17; 1.23; Is 10.2; Jr 7.6; 22.3; Zc 7.10; Ml 3.5). Por isso, na parábola de Lucas 18.1-8, Jesus utilizou-se da figura da viúva que embora hipotética, era um fato comum que viúvas sofressem por injustiças. Alguém poderia ter tirado o pouco que ela possuía. Ou, talvez, a tivesse impedido de receber o que lhe correspondia, o que a levou a clamar ao juiz, pedindo: “Faze-me justiça contra o meu adversário” (Lc 18.3-b).

1.3 - A narrativa da parábola (Lc 18.2-5). Certa viúva que tinha uma causa para ser julgada, foi a um juiz da cidade e lhe pediu socorro. Este juiz que “nem a Deus temia, nem respeitava o homem” (Lc 18.2-b), recusou-se ajudá-la: “E por algum tempo não quis atendê-la” (Lc 18.4). No entanto, a mulher propôs-se a buscar o que desejava até conseguir, e o juiz não suportando a sua insistência a atendeu “[…] hei de fazer-lhe justiça, para que enfim não volte […]” (Lc 18.5). Duas virtudes desta viúva são destacadas por Jesus, que são extremamente necessárias para a vida daquele que ora. Vejamos:

1.3.1 - A perseverança (Lc 18.5). As palavras do juiz a respeito desta mulher mostram o quanto ela era perseverante: “como esta viúva me molesta, […] e me importune muito” (Lc 18.5). Estes dois verbos “molestar” e “importunar” mostram que “o juiz estava farto dela”. Essa mulher era persistente a tal ponto que, mesmo o magistrado não temendo a Deus e nem aos homens ia conceder-lhe o que queria, pois estava convencido de que ela nunca pararia de importuná-lo até que seu pedido fosse atendido. A arma dela foi a insistência.

1.3.2 - A fé (Lc 18.8). A mulher destaca-se nesta parábola não somente por sua perseverança, mas também por sua fé. Essa fé é evidenciada por meio da sua atitude resoluta de insistir em seu pedido ainda que a um homem sem temor, pois cria que mais cedo ou mais tarde, o juiz lhe atenderia. Uma das características da fé verdadeira é que ela não desiste em hipótese alguma. No encerramento desta parábola, Jesus fala profeticamente que os últimos dias que antecedem a Sua vinda, serão dias marcados pela incredulidade: “Quando porém vier o Filho do homem, porventura achará fé na terra?” (Lc 18.8-b).

1.4 - A aplicação da parábola (Lc 18.6-8). O juiz desta parábola não atendeu a mulher porque sentiu compaixão por ela, senão porque foi vencido pelo cansaço (Lc 18.5). Diante disso, Jesus faz a seguinte ponderação: “Ouvi o que diz o injusto juiz. E Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele de dia e de noite, ainda que tardio para com eles?” (Lc 18.6,7). Ao contrário do juiz iníquo, Deus é apresentado nas Escrituras como o Juiz justo (Gn 18.25; Sl 7.11; 9.8; 19.9; 37.28; 50.6; 75.7; 94.2; 103.6); e, especificamente “Juiz das viúvas” (Sl 68.5). O salmista afirmou que o Senhor é o que “faz justiça aos oprimidos” (Sl 146.7); que por causa da opressão do pobre e do gemido do necessitado, Ele se levanta, para os pôr a salvo (Sl 12.5). Deus é aquele que galardoa aqueles que o buscam (Hb 11.6); Ele “trabalha para aquele que nEle espera” (Is 64.4); pois está atendo ao clamor dos seus filhos (Gn 30.6; Êx 3.7; Sl 12.5; 18.6; 66.19). No entanto, Deus age dentro de um tempo por Ele determinado (Gn 18.14; 21.2; 2 Rs 4.16,17; Gl 4.4; Hb 4.16).

II – A NECESSIDADE DA PERSEVERANÇA NA ORAÇÃO
Em relação a oração ela deve ser feita com perseverança, que é uma atitude que Deus requer do homem a fim de que obtenha resposta daquilo que se está buscando (Rm 12.12; Ef 6.18; Cl 4.2; 1 Ts 5.17). O verbo “perseverar” significa: “ser constante, permanecer, conservar-se” (HOUAISS, 2001, p. 2196). No grego, “hupomoné”, “perseverança”, “resistência”, “constância”. Esse vocábulo grego denota a resistência paciente, sob circunstâncias adversas, com base na ideia de alguém que leva aos ombros uma carga pesada, mas da qual não desiste (CHAMPLIN, 2004, p. 246). Acerca da perseverança na oração é bom destacar que: 2.1 Não devemos desfalecer. Quando Jesus contou esta parábola tinha o intuito de ensinar “[…] sobre o dever de orar sempre, e nunca desfalecer” (Lc 18.1-b). A expressão “desfalecer” segundo o Houaiss (2001, p. 991) significa: “esmorecer, enfraquecer, fraquejar”. É verdade que às vezes por não recebermos a resposta imediata das nossas petições, somos tentados a esmorecer, tal como aconteceu com alguns personagens bíblicos (Sl 42.5-a; 69.3; Pv 13.12). No entanto, a fé verdadeira sobrepõe as emoções e confia no Senhor e na Sua providência cedo ou tarde (Sl 42.5-b; 73.26; 119.81,123). Champlin (2004, p. 173 – acréscimo nosso) pontua alguns motivos pelos quais Deus “tarda” em responder. Vejamos:

a) O motivo dessa demora não é que Deus deixe de entender-nos, ou que relute em responder-nos. A demora não visa ao benefício de Deus, e, sim, o nosso;
b) A oração é, por si só, um ótimo edificador do caráter cristão, que nos ensina a buscar as coisas lá do alto;
c) Deus adia as respostas às nossas orações a fim de que nossos motivos e alvos sejam purificados;
d) Deus demora em responder-nos a fim de que o nosso desejo seja intensificado.

2.2 - Não devemos ser imediatistas. Nem sempre a nossa oração tem resposta imediata. A exemplo disto temos Davi (Sl 13.1-4; 69.3); Zacarias orava por um filho e só depois de muito tempo veio a resposta (Lc 1.13). Enquanto a oração autêntica não é respondida, ela fica em memória perante Deus (At 10.4). Perseveremos, pois, na oração. Muitos crentes param de orar por não receberem logo a resposta daquilo que pedem a Deus, falta-lhes perseverança (Rm 12.12). É preciso continuar diante do altar de Deus até receber a resposta (Lc 24.49). Abaixo destacaremos alguns exemplos de servos de Deus que buscaram com perseverança até conseguir resposta:

O exemplo de Isaque: “E Isaque orou insistentemente ao SENHOR por sua mulher, porquanto era estéril; e o SENHOR ouviu as suas orações, e Rebeca sua mulher concebeu” (Gn 25.21).
O exemplo de Ana: “E sucedeu que, perseverando ela em orar perante o SENHOR […]” (1 Sm 1.12);
O exemplo de Elias: “E disse ao seu servo: Sobe agora, e olha para o lado do mar. E subiu, e olhou, e disse: Não há nada. Então disse ele: Volta lá sete vezes” (1 Re 18.43).
O exemplo dos apóstolos: “Todos estes perseveravam unanimemente em oração e súplicas […]” (At 2.42-a).Veja ainda: (At 2.42; 6.4).

2.3 - Não devemos impor nossos limites. Há pessoas que agem precipitadamente, demarcando tempo para o seu período de oração, achando que “pressionando” Deus vão obter dEle a resposta mais rápido. Tal atitude revela uma tamanha imaturidade, pois Deus só responde quando quer e jamais será forçado ou coagido por alguém, pois “faz tudo o que lhe apraz” (Sl 115. 3). É bom lembrar também que o fato de a Bíblia nos exortar a orar com perseverança até obter resposta, não significa dizer que está resposta será sempre um “sim” (Gn 17.20; Êx 33.17). Deus também responde com um “espere” (Jo 2.4); ou com um “não” (Dt 3.25,26; 2 Co 12.8-9), pois segundo a Sua vontade Ele nos ouve (1 Jo 5.14).

CONCLUSÃO
Vivemos em dias onde as pessoas não somente tem diminuído a prática da oração, como tem deixado de orar com perseverança. Esta parábola visa alertar-nos de que Deus está pronto a nos ouvir e responder no tempo certo.

REFERÊNCIAS
CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento Interpretado – Gênesis a Números. HAGNOS.  CHAMPLIN, R. N. Dicionário de Bíblia, Teologia e Filosofia.HAGNOS.
HOUAISS, Antônio. Dicionário da Língua Portuguesa. OBJETIVA.
STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.

Jogral: E perseveravam unanimemente em oração e súplicas (At 1.14)

Todos – E perseveravam unanimemente em oração e súplicas! 1 – Após a ressurreiçã...